domingo, 14 de julho de 2019

Maria- A Rainha do Cangaço!




Brasil 1929... município de Jeremoabo, Sertão da Bahia. Lampião (Virgulino Ferreira da Silva,  nascido em Vila Bela, atual Serra Talhada, Pernambuco, 4 de Junho de 1898 ) ex- artesão, alfabetizado, alto, um pouco corcunda, cego do olho direito, óculos para leitura, manco de um pé (baleado três anos antes), com moedas de ouro costuradas na roupa. Tinha cheiro forte de perfume francês misturado com suor de muitos dias. Um cangaceiro, ou melhor...o Rei do Cangaço! 




Maria Gomes Oliveira (nascida numa pequena fazenda no povoado de Malhada da Caiçara, município da Gloria, atual cidade de Paulo Afonso, Bahia em 8 de março de 1911), tinha 18 anos quando subiu na garupa do cavalo do capitão Virgulino . 



Maria era morena clara, tinha cabelo e olhos castanhos, nariz afilado, lábios finos, 1,56 metro de altura (Lampião tinha 1,74) , um par de coxas grossas,  "um certo achatamento da região glútea e os pés grandes e esparramados", descreve a jornalista Adriana Negreiros no livro "Maria Bonita-Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço" (Editora Objetiva)


 Era dona de uma gargalhada alta e, para Dadá, a mulher de Corisco, e sua principal rival, ela era "abusada, ranzinza, orgulhosa, metida a besta, barulhenta e arrumadinha feito uma boneca"...
 Era bonita, habilidosa na costura (assim como era Lampião) e adorava dançar. Foi o suficiente para Virgulino quebrar a tradição do cangaço e permitir o ingresso de uma mulher no bando, o que abriu precedente para várias outras. 


               A cangaceira Inhacinha ferida na perna (foto de autor desconhecido)

Maria havia casado bem jovem (aos 15 anos), com o sapateiro Zé Neném (José Miguel da Silva), que gostava de festas e bordéis, traindo a esposa continuamente, e a agredindo quando confrontado. Seu pai, o agricultor José Gomes (pai de dezenas de filhos), arranjara o casamento ao perceber a personalidade rebelde da filha. 


Maria foi chamada de Maria Bonita depois de morta. Os jornais consagraram o codinome, ou por analogia ao romance “Maria Bonita” (1914), de Afrânio Peixoto, ou porque os soldados que a mataram a apelidaram assim, espantados com sua beleza. Em vida, era Maria de Déa, filha de Déa e nascida em 17 de janeiro de 1910 em Malhada da Caiçara, Paulo Afonso, norte da Bahia. Com 15 anos, a menina de 1,56 metro, pálida, faladora e dona de uma gargalhada que irritava sua rival Dadá, mulher de Corisco. Descasou-se aos 18 anos e espalhou que sonhava seguir Lampiã
A mulher de Lampião era chamada de Rainha do Cangaço, Maria de Dona Déa, Maria de Déa de Zé Felipe ou Maria do Capitão. O nome conhecido surgiu inspirado em um romance de 1914 - "Maria Bonita", de Júlio Afrânio Peixoto, adaptado para o cinema 23 anos depois. Vários repórteres chegaram ao consenso para padronizar a informação disseminada pelos jornais da época.



Lampião tratava a mulher paciente e carinhosamente. E ria das constantes crises de ciúme dela. Em 1931, o casal viajou no que seria uma lua de mel tardia e se hospedou na casa de fazendeiros abastados. Lampião fumava charutos, Maria jogava cartas e eram muitos os brindes com uísque White Horse. Lampião gostava de cantar e tocar sanfona, enquanto era acompanhado pela mulher, no bandolim. Quando sua voz falhava, chupava pastilhas Valda. Aparentemente, Maria teve um romance com um comerciante chamado João Maria de Carvalho. Quando precisava de algo, tipo sapatos, ela mandava pedir a ele...



Com o poder adquirido em janeiro de 1930, quando se tornou a primeira-dama do “Rei do Cangaço”, mostrou-se logo conivente com os estupros coletivos, rituais de sangramento, marcação a brasa e assassinatos praticados pelo bando. Costumava arrancar violentamente as joias das mulheres capturadas ferindo suas orelhas e pescoços. Aprovava que as comparsas adúlteras fossem torturadas e decapitadas. Às vezes os ajudava. “Não se opunha às execuções de mulheres por traição”, diz Adriana. “Chegava até a incentivá-las, como se deu quando Cristina foi morta por suspeita de trair o cangaceiro Português...

Mas sabia ser clemente! Em 1936, Lampião condenara à morte vinte escoteiros venezuelanos liderados pelo chefe Andrés Zambranos. Maria vistoriava os condenados, amarrados a árvores, quando se deparou com o corpo totalmente nu de Zambranos. “Menino, você é bem bonitinho!”, disse-lhe com um sorriso...foi falar com o marido e o convenceu a libertar os garotos....





 Maria Bonita só brigava com Lampião por ciúmes quando este passava semanas sem voltar ao acampamento. Segundo os relatos contidos no livro, ela "montava um barraco" e os cangaceiros comentavam: "A patroa está doida".Não há relatos de que, em algum momento, Maria de Déa tenha sofrido violência física de Lampião. Tudo indica que, no trato cotidiano, o cangaceiro-mor tratava sua esposa de forma paciente e carinhosa, respondendo com bom humor suas constantes crises de ciúmes.





 Maria tinha 28 anos em 28 de julho de 1938, quando foi capturada e morta com o bando na grota do Angico, em Sergipe. Seu martírio se revelou diferente do de Joana d’Arc na fogueira. Diz a lenda que foi decapitada enquanto tentava convencer o “macaco” (soldado) de que merecia viver. Com a cabeça separada do corpo, continuou a tagarelar por um milésimo de segundo...


...o corpo decapitado de Maria Bonita foi abandonado com as pernas abertas e um pedaço de madeira enfiado na vagina...





Maria Bonita, que hoje é ícone da liberação das mulheres e dá nome a diversos coletivos feministas, era, sim, uma "transgressora", defende Negreiros. No sertão dos anos 1920, casada, infeliz com um marido mulherengo e sexualmente insatisfeita, ela se refugiava na casa dos pais e, em vez de chorar pelos cantos, ia dançar  forró no povoado. Há indícios de que teria um amante. Quando conheceu Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), não duvidou em fugir com ele, tornando-se a primeira mulher a unir-se ao cangaço e uma das poucas em fazê-lo de livre e espontânea vontade.
"De certa forma, Maria era bela, recatada e do lar. Dizer que ela era uma pioneira do feminismo é um exagero, porque não tinha um comportamento que se opusesse à dinâmica reinante na cultura do cangaço", diz Negreiros. Uma cultura na qual abundavam, por exemplo, os estupros de meninas e mulheres nos lugares por onde o bando passava... com a conivência das cangaceiras.



Negreiros conclui que o papel que as mulheres tiveram no cangaço é o mesmo que tiveram historicamente em diferentes organizações sociais: a de criar uma situação confortável no ambiente doméstico para que os homens pudessem brilhar no espaço público. "Criaram uma espécie de refúgio do caçador. A estrutura da opressão era muito evidente também no cangaço".

A filmografia sobre Maria Bonita & seu amado Lampião, começa com os documentários " Lampião, a Fera do Nordeste" (1930 ) de Guilherme Gáudio, e "Lampião, o Rei do Cangaço" (1936) de Benjamin Abrahão - este, um verdadeiro clássico. O fotógrafo e cineasta ( na verdade, um mascate- vendedor ambulante  ) libanês, acompanhou o bando de Lampião, registrando "in loco" suas atividades e dia-a-dia.  






Suas imagens foram apreendidas pela ditadura do Estado Novo, e só recuperadas nos anos 60. Elas são de extrema importância histórica, e algumas cenas foram reutilizadas em outras produções, como no documentário " "Memória do Cangaço" (1965) de Paulo Gil Soares, e no filme "Baile Perfumado" (1996).





 "Maria Bonita" (1937) de Julien Mandel, baseado no livro de Afrânio Peixoto, e com roteiro do próprio...



Eliane Angel é a Maria Bonita do drama, que não tem cangaceiros. Como o filme é anterior a morte da Rainha do Cangaço, certamente foi uma das inspirações para os jornalistas e o público adotarem o apelido póstumo para a conhecida vilã/heroína...

"O Cangaceiro" (1953) de Lima Barreto...




O grande clássico da produtora Vera Cruz, teve carreira internacional (premiado no Festival de Cannes), ao adaptar as convenções do Western americano ao cenário do sertão brasileiro. 



O bando do cangaceiro Capitão Galdino Ferreira (Milton Ribeiro), aterroriza a caatinga nordestina. Em um ataque em uma cidadezinha, raptam a bela professora Olívia (Marisa Prado) para exigir resgate. A moça desperta uma súbita paixão no também cangaceiro Teodoro (Alberto Ruschel), braço direito do Capitão. 







 Maria "Bonita' Clódia (vanja Orico), mulher de Galdino, não vê com bons olhos a chegada de Olívia, já que ela ama o sensível Teodoro, de quem está grávida. 




Teodoro e Olívia fogem juntos e são perseguidos pelo bando...

Totalmente inspirado em Lampião, o filme também imortalizou a música "Mulher Rendeira" (cantada aqui por Vanja Orico), que dizem, teve sua letra composta pelo próprio Virgulino Ferreira, em homenagem a sua avó, Maria Jocosa, que era uma rendeira...





"Lampião, O Rei do Cangaço" (1964) de Carlos Coimbra...




Leonardo Vilar é Virgulino, e a atriz e cantora Vanja Orico é novamente a Maria Bonita. 






No filme de Coimbra, a figura de Virgulino Ferreira é mostrada como um herói dos pobres, um Robin Hood da caatinga...





"Maria Bonita, Rainha do Cangaço" (1968) de Miguel Borges...


Cansada da vida calma e de viver na miséria, Maria (Celi Ribeiro) larga seu marido, um mero sapateiro, e vai em busca de um novo caminho.



 Ela encontra o cangaceiro Lampião (Milton Moraes), torna-se sua esposa e  passa a fazer parte de seu perigoso e famoso bando.




 No entanto, Maria Bonita sonha alto: ela deseja transformar Lampião em um verdadeiro herói do sofrido povo sertanejo. Mas, a realidade e uma série de conflitos leva até o desfecho na fazenda de Angicos...

"Corisco, o Diabo Loiro" (1969) de Carlos Coimbra...




Corisco (Mauricio do Valle ) e sua companheira Dadá (Leila Diniz ) escapam do massacre de Angicos, e são capturados após decidirem mudar de vida. 




No caminho para a cadeia, Dadá relembra a trajetória dos dois com todas as aventuras ao lado do bando de Lampião (Milton Ribeiro ) & Maria Bonita (Maracy Mello ).... 










"Meu Nome é Lampião" (1969) de Mozael Silveira...




O bando de Lampião (Milton Ribeiro- o Lampião "oficial" do cinema) assalta uma fazenda em meio aos preparativos de um casamento. No tiroteio, seu irmão Ezequiel é morto e o capitão, em retaliação, queima viva a dona da casa e manda currar a noiva. Ao chegar na fazenda, o noivo, Antônio (Milton Rodrigues), descobre tudo e promete  vingança ! 




Os cangaceiros continuam com suas atrocidades, assaltando, matando e saqueando, até que um pai de santo roga uma praga sobre Lampião e Antônio, agora detentor de uma força sobrenatural, decide confrontá-lo na festa de aniversário de Maria Bonita (Rejane Medeiros)...um duelo entre os dois é inevitável...





"Lampião e Maria Bonita" (1982) de Luís Antônio Piá & Paulo Afonso Grisolli




Minissérie da TV Globo, que em 8 capítulos (depois condensada em um filme de duas horas) narra os últimos meses de Lampião e Maria Bonita.




 A história começa quando o bando de Lampião (Nelson Xavier) sequestra o geólogo inglês Steve Chandler (Michael Menaugh), pedindo resgate.

O governo envia o Tenente Zé Rufino (José Dumont), tradicional perseguidor de Lampião. Em determinado momento da trama, Maria Bonita (Tânia Alves) desaparece, para fazer um aborto e, quando retorna doente, fica aos cuidados do geólogo que se apaixona pela moça.




 Após a recusa da Embaixada de pagar o resgate, a volante do Tenente Zé Batista (Gilson Moura) encontra o casal, que ao amanhecer do dia 28 de julho de 1938, é metralhado sem qualquer condição de defesa...

"O Cangaceiro Trapalhão" (1983) de Daniel Filho....




Severino do Quixadá (Renato Aragão), um pastor de cabras, salva o Capitão Virgulano (Nélson Xavier) e seu bando de cangaceiros de uma emboscada do tenente Zé Bezerra (José Dumont). 




Na confusão, os amigos Mussum e Zacarias fogem da cadeia e todos se encontram no esconderijo dos cangaceiros, onde Gavião (Dedé Santana) é homem de confiança do chefe. Dona Maria (Tânia Alves) nota uma semelhança de Severino com o Capitão, e ele ganha o nome de Lamparino, e uma missão, que acaba revelando-se uma emboscada...



Sátira ao gênero no estilo do grupo Os Trapalhões, inspirada na minissérie da Globo, com Nelson Xavier, Tânia Alves & José Dumont reprisando seus papeis... 



"Baile Perfumado" (1996) de Lírio Ferreira & Paulo Caldas...





Amigo íntimo do Padre Cícero (Jofre Soares), o mascate libanês Benjamin Abrahão (Duda Mamberti) decide filmar Lampião (Luís Carlos Vasconcelos), Maria Bonita (Zuleica Ferreira) e seu bando, acreditando que este filme o deixará rico. 




Após alguns contatos iniciais ele conversa diretamente com o famoso cangaceiro e convive intimamente com o bando,  expondo um Lampião que se deslumbra com os primeiros rasgos de modernidade no sertão, coisas como o uísque escocês, a máquina fotográfica e o perfume francês, que utilizava em grandes bailes. 






Um personagem diferente daquele lembrado pelo imaginário popular...

"Corisco & Dadá" (1996) de Rosemberg Cariry...




Corisco "O Diabo Loiro" (Chico Díaz), sequestra e estupra a menina Dadá (Dira Paes), que se torna sua companheira e se integra ao bando de Lampião (Chico Alves ) . Denise Milfond vive Maria Bonita...mas a trama toda gira em torno do segundo casal mais famoso do cangaço... 




                                    Maria Bonita & Dadá


"O Cangaceiro" (1997) de Anibal Massaini Neto




Remake do clássico de 1953. O bando do Capitão Galdino (Paulo Gorgulho) & de sua mulher Maria Bonita (Luiza Tomé), espalha o terror no sertão.






 Maria Bonita ama secretamente Teodoro ( Alexandre Paternost ), braço direito do Capitão, e de quem está grávida...




"A Luneta do Tempo" (2016) de Alceu Valença



Lampião (Irandhir Santos), sempre acompanhado por sua amada Maria Bonita (Hermila Guedes), lidera seu bando pelo sertão de Pernambuco, enfrentando a polícia local. Seu principal antagonista é Antero Tenente, que foi abandonado preso e de cabeça pra baixo pelo bando de Lampião. Esta disputa permanece com o passar dos anos, quando o filho de Antero torna-se adulto e não aceita qualquer provocação à imagem do pai ou a simples menção a algo que lembre Lampião e seus cangaceiros.




 Entrecortando a trama, entra a vida após a morte de Lampião e Maria Bonita, imaginada por um cordelista da cidade. É aí que se apresenta a tal luneta do tempo, por meio da qual Lampião olha para o passado. Essas cenas concentram-se na relação romântica do casal...




 Alceu,músico e poeta talentoso, incorpora o cordel a seu roteiro de forma pouco usual: não apenas os diálogos são versificados e rimados à sua moda, como a própria ordem de cenas e acontecimentos segue uma falta deliberada de linearidade. A impressão que se tem é que de fato o filme saiu de um cordel, já que há saltos no tempo que não se justificam pelo desenvolvimento da trama, parecendo inventados ao gosto do poeta-cantor, e agora também cineasta...


 Maria Déa, Maria do Capitão, Maria Bonita, Maria do Capitão, Maria do Brasil...

Maria Bonita teve uma filha com Lampião ( e perdeu outros 3...), deixou um legado de heroína e é conhecida historicamente como uma mulher de fibra e com capacidade incrível de liderança. 
Apesar das controvérsias entre pesquisadores sobre a função das mulheres no período do Cangaço, Maria Bonita e Dadá são consideradas importantíssimas para entender esse período histórico brasileiro!!!!
. - Veja mais em https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/08/24/maria-bonita-joias-tortura-e-sem-sexo-as-sextas-diz-biografa-do-cangaco.htm?cmpid=copiaecola

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/soberana-do-sertao/#_ftn3




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...