segunda-feira, 9 de abril de 2012

Valentina: Mulher em Carne & Osso & Nanquim!



Valentina Rosselli nasceu no dia 25 de dezembro de 1942, em Milão, pelas mãos e mente de Guido Crepax (1933 – 2003), que nem imaginava que a sexy personagem coadjuvante dos quadrinhos policiais protagonizadas por seu herói Neutron, fosse aos poucos ganhando espaço e assumindo o papel central nas histórias.

A aparência de Valentina foi inspirada em Lulu, personagem do filme “A Caixa de Pandora” (Die Büsche Der Pandora, 1929) interpretada por Louise Brooks (atriz norte-americana do cinema mudo dos anos 30 e 40, que morreu em 1985) e em Luisa Crepax, a mulher do quadrinista. Crepax era admirador de Brooks e guardava várias fotografias dessa mulher diferente de cabelos curtos que o fascinava e foi o ponto de partida para a criação da personagem. Mas logo  depois, Luisa Crepax cortou o cabelo no mesmo modelo da atriz, passando então a ser a inspiração.

Louise Brooks
Luisa Crepax















Guido Crepax, que estudou arquitetura, sempre dedicou-se ao desenho. Ilustrou campanhas publicitárias, revistas médicas, capa de livros e discos. Fez capas para Charlie Parker, Louis Armstrong e Gerry Mulligan. E também algumas capas de álbuns de música clássica, mas o jazz era uma de suas paixões. Ele sempre desenhava ouvindo música alta. Ouvia Bob Dylan e os Beatles, mas principlamente jazz. Em 1965, Guido Crepax foi convidado a participar da revista italiana Linus (revista que inventou o gênero de quadrinhos adulto) e foi nesse ano que Valentina apareceu pela primeira vez no dia 05 de dezembro e começou a ganhar força, tornando-se a única protagonista da série em 1967.
Valentina Rosselli aparece pela primeira vez no dia 05 de dezembro de 1965 em "A Curva de Lesmo" (referindo-se a uma curva do Grand Prix de Monza de Fórmula 1), uma trama policial onde uma gangue internacional planeja assassinatos de milionários pelo mundo. A missão de Neutron, com poderes mediúnicos e paralisantes, é impedi-los. Para tanto, Philip (a identidade secreta do herói)  vai à Itália, onde conhece a fotógrafa milanesa (Valentina, com 23 anos nessa história). A partir daí, um enredo mirabolante se desenvolve, no melhor estilo 007, misturando romance com corridas de automóveis, perseguições em lanchas e helicópteros. 
 



Com o passar dos episódios, Valentina -  a fotógrafa independente, sexy e bem resolvida - torna-se a mulher dos sonhos dos homens, dominando de forma intensa o imaginário dos leitores,  que perdem o olhar entre as suas longas curvas. Valentina passa aos poucos a protagonizar as histórias. E Philip, acaba como personagem subalterno. Valentina e Philip  tiveram um filho sem serem casados (isso foi bastante ousado para época), Mattia. A bela morena era adepta do amor livre e de vez em quando ela e Philip tinham aventuras paralelas mas, no final, sempre voltavam a ficar juntos, ligados num grande amor.
A medida que o tempo passou as histórias foram abandonando a ficção, ciência ou os temas de detetive do início, e foram dando lugar  à introdução de uma mistura complexa e estranha de alucinações, erotismo e sonho. As tiras também trataram de  bissexualidade, êxtase autoerótico, supersensual, abandono e sadomasoquismo.

 



















 

















Valentina - que estava sempre envolvida em peripécias eróticas - frequentava ambientes e bebia champanhes caros, fazia  inúmeras referências à alta costura, como seu corte de cabelo Channel e o seu vestido estilo Dior. Mas estava longe de ser uma alienada, exibia um certo refinamento cultural e politizado. Esses ambientes que costumava frequentar eram repletos de artistas e intelectuais, sendo referências literárias e musicais. A bela fotógrafa era vista como moderna pra sua época não se importando com a moral imposta pela sociedade.
Mas algumas atitudes da personagem incomodavam as feministas italianas que não concordavam com a sexualidade abusiva de Valentina. Tempos depois, as representantes do movimento feminista italiano ofereceram desculpas a Crepax, dizendo que ele fora o único capaz de apresentar a visão de uma mulher completa, com desejos e ambições, liberdade sexual e profissional.


 






Valentina que teria hoje 69 anos - completando 70 no final de dezembro - foi a primeira personagem a envelhecer nos quadrinhos. Nos últimos anos que Crepax a desenhou ela usava óculos e era uma pós-balzaquina ainda sexy e curvilínea.
Com quase duas mil páginas, Valentina – que teve o último episódio publicado em 1995 – continua fascinando leitores do mundo inteiro. Best seller em vários países da Europa, a obra de Crepax influenciou grandes nomes dos quadrinhos adultos, como Milo Manara e Paolo Eleuteri Serpieri. 

No Brasil, suas histórias foram publicadas pela primeira vez em 1971, na revista "O Grilo". Em sua sétima edição, a revista trazia a feliz novidade na capa: Valentina chegou! Não é difícil concluir que ela logo conquistou o publico tupiniquim. Foi nessa época que o menino de apenas 7 anos, Marco Aurélio Lucchetti  - hoje professor universitário em Ribeirão Preto, doutor em comunicação pela USP -  teve o primeiro contato com a  personagem. A revista "Grilo", foi comprada por seu pai, o escritor mestre do terror R. F. Lucchetti. A partir daí Marco Aurélio tornou-se fã daquela mulher sedutora, de olhar lânguido, submisso, que vive entre o sonho e o sexo, entre o delírio e o mistério, e começou  colecionar tudo o que conseguia encontrar sobre ela. Passou anos estudando – ou desnudando, sua amada sedutora. Suas investigações resultaram em uma tese de doutorado que mais tarde (2005) se tornaria o belo livro “Desnudando Valentina – Realidade e Fantasia no Universo de Guido Crepax” (Opera Graphica/ 384 páginas). E realmente no livro Marco Aurélio Lucchetti desnuda Valentina! Desnuda de uma forma saborosa, mostrando tudo sobre a musa dos quadrinhos, às vezes de forma repetitiva, às vezes trazendo uma surpresa louca. Busca suas fontes seja em teses acadêmicas seja em papo de corredor. Como o que travou com o professor Araújo, que tinha acidentalmente encontrado o desenhista em Lucca, na Itália, em um congresso. Araújo e Crepax travaram amizade, o desenhista o convidou para, quando em Milão, ir visitá-lo. O professor não titubeou. Terminado o congresso, pegou o trem e foi. Ao chegar, sentado na sala, conversava com Crepax quando entrou a mulher do desenhista para servir um café. "Fiquei surpreso ao ver que ela era Valentina em carne e osso e exclamei: 'Mas... é Valentina!'" Imediatamente, Crepax replicou: "Sim... Que posso fazer? Ela está em toda parte."  

 

Em 1973 foi feito  um filme chamado “Baba Yaga” baseado na história em quadrinhos. Valentina foi representada pela atriz francesa Isabelle De Funès. O filme foi dirigido por Corrado Farina, que já havia feito um documentário sobre os quadrinhos de Guido Crepax. Apaixonado por quadrinhos, Farina queria mostrar ser possível a adaptação para o cinema. O nome Baba Yaga vem do folclore da Europa oriental, significa bruxa ou espírito demoníaco da floresta, e neste caso, trata-se de uma figura perversa que Valentina conheceu em uma de suas andanças por Milão quando salva um cão de um atropelamento. A mulher dirigindo o carro, a misteriosa e estranha Baba Yaga (Carroll Baker), se oferece para levá-la até sua casa. Após esse encontro bizarro, Valentina começa a ter uma série de pesadelos sado-masoquistas ao mesmo tempo em que é constantemente perseguida por Baba Yaga.


  

 

 





Nossa formidável heroína também foi parar na televisão. A série italiana Valentina estreou em 1989, com roteiro de Gianfranco Manfredi, com suprevisão de Guido Crepax e direção de Gianfranco Giagni e Giandomenico Curi.  Valentina foi interpretada pela atriz norte-americana Demetra Hampton e Philip Rembrandt por Case Russel. Após um período de grande expectativa, o resultado foi frustrante: estilo banal, padrão de videoclip, ao contrário dos primeiros planos, utilizados quase em excesso por Crepax; nudez gratuita no lugar das fantasias surrealistas, entre outros detalhes sofríveis. Apesar da beleza de Demetra Hapton, a série não rendeu o esperado e, depois de treze episódios, o projeto foi rapidamente engavetado.




Além do livro, filme e da série, a musa dos quadrinhos  ganhou em 2012 uma  linha de móveis inspirada nos que foram criados por Crepax. Valentina emprestou a sua imagem à uma coleção exclusiva de móveis de decoração criada pelos designers italianos Andrea Radice e Folco Orlandini e produzida pela indústria brasileira de móveis Schuster. Vejas as peças:












A linha Valentina é uma homenagem a personagem femme fatale e seu criador. Para mais informações sobre vendas  clique  http://www.moveis-schuster.com.br/valentina/




Em março de 2012 Valentina Rosselli ganhou vida nas paginas da revista Playboy através da sua xará e também italiana, Valentina Francaviila. A morena de 32 anos - que nasceu na Itália e veio morar no Brasil ainda criança – já participou do programa “VJ Por Um Dia” (MTV), fez pegadinhas no "Programa Sílvio Santos",  gravou o quadro "Lendas Urbanas", do "Domingo Legal" (SBT) e é assistente de palco do “Programa do Ratinho” (SBT). Para ficar parecida com a personagem dos quadrinhos  Valentina Francavilla cortou os cabelos, e posou para as lentes de Luís Crispino segurando uma câmera e fazendo poses iguais as vistas nas HQs.



 









































 
Curiosidade: Guido Crepax nunca chegou a conhecer Louise Brooks, musa inspiradora de Valentina. Mas muitos anos depois da criação da personagem, Crepax teve coragem de enviar um livro para a atriz, que estava velha, esquecida e pobre morando numa pequena cidade dos EUA. No começo Brooks não entendeu, mas depois Crepax enviou uma carta explicando toda a história e então os dois começaram uma amizade por corresponência. Foi uma das últimas alegrias de Brooks que logo depois veio a falecer.


 



Louise Brooks em 1964











Texto e pesquisa: Gisele Ferran
@Gi_de_Gisele

2 comentários:

  1. Gostei muito é do desenho de vocês no final da postagem! :D

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  2. Hei Gentes!

    Adorei conhecer a poderosa Valentina! Além de muita personalidade, volúpia, se firmar num universo majoritariamente masculino (HQ), ela ainda tem os cabelos pretos e curtos, rsrsrssr. Poderia até ser a tendência da época, considerando a fonte de inspiração e a nacionalidade da personagem, mas é lindo assim mesmo. Uma quebra de estereotipo pro nosso país (a Bahia é o lugar que tem a maior população de negros, fora da África)que cultua as louras de cabelos compridos e seios siliconados. Conhecem a série Carnivale? Tem uma loura, provavelmente com mais de 30 anos, considerada "gordinha" para os nosso padrões e é deliciosamente sexy! A sensualidade é maior que padrões. Bjnhos pro Titio Coffin e A Patroa!

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