segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Jean Rollin: Terror, Sexo & Arte!



Quando se fala em filmes que misturam terror e sexo, é impossível não comentar a obra (amada e desprezada com a mesma intensidade) de um dos mestres no assunto, o francês Jean Rollin.
Nascido Jean Michel Rollin Le Gentil, em 3 de novembro de 1938, num subúrbio de classe média de paris, em uma família ligada com as artes. Seu pai, era ator e diretor de teatro, e seu irmão mais novo também se tornou um ator e artista plástico. Sua mãe era muito amiga de Georges Battaille, escritor surrealista e intelectual ateu (autor de "História do Olho", "A Parte Maldita" e outros) e o jovem Jean ouvia fascinado suas histórias de ninar sobre lobos vestidos de padres e outros personagens, que mais tarde descobriu, remetiam a Nietzsche e De Sade.
Rollin entrou para o mundo do cinema em 1955, como assistente de direção em uma pequena produtora de filmes de animação parisiense. Logo, ele começou a trabalhar como editor, e em 1958, fez seu primeiro curta "Les Amours Jaunes", inspirado no poeta pessimista do séc.XIX Tristan Corbière. 


Enquanto procurava financiamento para mais um filme seu, Rollin trabalhou de editor na TV e de engenheiro de som e outras funções em pequenos e diversos filmes. Também fez parte de um grupo de jovens intelectuais ligados ao movimento avant-garde e a grupos anarquistas. 
Finalmente conseguiu com o produtor Sam Selsky, as condições para realizar seu primeiro longa "Le Viol du Vampire" (1967), que estreou em vários cinemas de Paris, juntamente com outro curta seu ("Les Pays Loins" de 1965). em maio de 1968. Apesar dos  tempos conturbados de revolução, o sucesso foi considerável.


"Le Viol du vampire" mostra o drama de duas irmãs perturbadas, que tentam se livrar da maldição de uma rainha-vampira  negra que surge do mar. Na verdade o filme é a reunião de dois curtas "Le Viol.." e "Les Femmes Vampires", sua continuação.




Recheado de imagens surrealistas e sensuais, com uma edição aparentemente caótica (misturando cenas de humor, suspense e drama), irritou muitos críticos e o público mais intelectualizado, mas garantiu a bilheteria com os ingredientes sexuais. Já a censura francesa da época, considerou o filme  algo como "explícito", por sua atmosfera de terror & sexo misturados em clima de sonho...



                                         o clima onírico do primeiro longa de Rollin.


Nunca preocupado com roteiros coesos, e sempre em busca de cenas e imagens fortes o suficiente pra não necessitarem de uma explicação racional (influência do surrealismo), Rollin dirigiu "La Vampire Nue" (1969). 



















Construído como um louco quebra-cabeças, cada sequencia invoca uma parte de um mistério, que a sequencia seguinte trata de desconstruir. Toda a "explicação", fica para o último momento da trama. Esta, se refere a um culto secreto de ricos suicidas que procuram a imortalidade através de sua prisioneira, uma bela e jovem vampira muda. As coisas se complicam quando o filho de um deles se apaixona pela garota e um grupo de vampiros tenta resgata-la.




Seguiu-se "Le Frisson des Vampires" (1970), um de seus grandes Clásssicos. Um casal em lua-de-mal, chega ao castelo de seus primos, e descobrem que eles estão mortos. Mas são bem recebidos por duas bonitas empregadas.
Gradualmente a mulher vai sucumbindo ao assédio de Isolde (Dominique), uma exótica vampira lésbica que sai de dentro de um grande relógio exatamente a meia noite.
 
Em um final espetacular, a mulher alimenta-se do sangue de suas próprias veias. Rollin manipula os clichês tradicionais do gênero (castelo, cemitério, vampiros, noiva virginal, etc.) quase ao ponto da paródia. Como sempre, ele trabalha de forma rápida e barata, mas com cuidados no visual, iluminação e efeitos de cor, resultando em seu filme mais comercial e de melhor bilheteria na França.


O mesmo não aconteceu com a cópia dublada para o mercado exterior, chamada "Sex and the Vampire". Os diálogos pretensiosos e cheios de nonsense (escritos pelos próprios atores) perderam seu sentido (e foram simplificados na tradução), perdendo muito do seu espírito de paródia.

Com orçamento garantido para mais um filme (e um prazo de apenas 10 dias para entregar um roteiro) Rollin escreveu rapidamente "Requiem pour un Vampire" (1971), improvisando novamente situação após situação, sem se importar com uma história coesa.



Na trama, duas jovens fugitivas de um reformatório (e vestidas de palhaços), roubam um carro e acabam aprisionadas em um velho castelo onde um vampiro dentuço (Michel Delesalle) e sádico conduz uma seita de mortos-vivos sanguessugas.



Mais do que nunca, Jean Rollin se apoiou em sua estética visual (o primeiro diálogo do filme só acontece aos 40 minutos), mas aqui apesar da beleza da dupla de jovens atrizes (Marie Pierre Castel e Mireille D'Argent), existe bem menos situações de sexo e nudez que em seus projetos anteriores.  






Assim mesmo, ao ser lançado nos EUA pelo notório "picareta " Harry Novak, o filme recebeu um tratamento de sexploitation e o título de "Caged Virgins". O produtor Sam Selsky esbravejou e ameaçou o distribuidor, mas depois de refletir concluiu "Os americanos provavelmente não sabem o que quer dizer réquiem." (em "Immoral Tales" de Cathal Tohill & Pete Tombs, 1995).
A grande febre das bilheterias na Europa e América nesta época eram os filmes hard-core, depois do sucesso estrondoso de "Garganta Profunda" (1972) de Gerard Damiano. Um dos distribuidores dos primeiros filmes de Rollin o convenceu a rodar alguma coisa que fosse um pouco além do que era permitido pela censura francesa da época. Assim, surgiu o pseudônimo Michel Gentil, com o qual assinaria "Tout le Monde il en a 2" (1973), depois remontado com mais cenas hard-core e rebatizado de "Bacchanales Sexuelles", um grande estouro de bilheteria na França. Misto de filme de sacanagem com terror, contava como duas garotas caiam nas garras de Malvina, a sacerdotisa de uma seita de amantes de "carne jovem". O mesmo distribuidor (Lionel Wallmann) ofereceu um orçamento maior para um novo projeto de Jean, desde que ele rodasse também mais filmes de sexo puro, oferta que ele  a princípio recusou. 






Rodou então o estranho "Les Démoniaques" (1973), uma aventura violenta de terror. Duas garotas (uma das fixações de Rollin), sobreviventes de um naufrágio, são violentadas por um grupo de piratas sádicos. Acolhidas pelos moradores de uma ilha com fama de assombrada, elas aparentemente adquirem poderes para se vingar dos agressores.





Antes mesmo do filme estar pronto, Rollin teve uma outra ideia, para um filme mais estranho ainda. Sem vampiros,  pouco sexo e apenas um toque de sobrenatural, na história  surreal de um casal que fica preso em um cemitério e não consegue achar a saída de lá. Baseado novamente em um poema de Tristan Córbiere, "La Rose de Fer" (1973), teve dificuldades de ser produzido e distribuído exatamente pela falta dos elementos mais comerciais e conhecidos da obra do cineasta, apesar de ser um de seus projetos mais pessoais.





Graças a ajuda do fã e jovem produtor Marc Ghanassia, conseguiu um pequeno orçamento e total liberdade criativa para rodar "Lèvres de Sang" (1975), com uma história comercialmente mais viável e muitas auto-referências, incluindo um clip de "Le Frisson des Vampires".


Poster do filme, criado pelo desenhista Philip Caza e banido pela censura francesa da época.


Jean-Lou Philippe (também co-roteirista), vive um homem atormentado com visões de uma bela mulher vestida de branco e de um castelo em ruínas a beira mar. Em sua busca pelo mistério, ele acaba liberando quatro vampiras de um cemitério e no final descobre que a fantasmagórica mulher era sua irmã, enterrada viva por sua mãe por ter vampirizado seu pai. Estreado em 1976, no auge da invasão pornô nos cinemas franceses, o belo filme sobre memória e complicações Edipianas fracassou miseravelmente. 




Para recuperar algum dinheiro para os investidores, ele utilizou várias sobras e cenas alternativas do filme para um novo hard-core chamado "Suce-moi, Vampire" (1975, Michel Gand), que ironicamente foi um considerável hit nos cinemas pornôs parisienses.conhecidos da obra do Finalmente Rollin se rendeu a indústria pornô, e assinando como Michel Gentil, Robert Xavier ou como Michel Gand rodou 12 filmes baratos de putaria entre 1973 e 1978. Somente "Phantasmes" (1977) ele assinou com seu nome, tentando mesclar de forma artística suas duas carreiras. Este é um pornô com tortura e bondage, sobre um conde perverso que rapta belas mulheres para tortura-las sexualmente no porão de seu castelo. O orçamento minguado e um elenco amador e desacostumado com seus métodos, frustaram seu intento. 


  Phantasmes, lançado nos EUA em uma versão truncada como "The Seduction of Amy"



Seu maior lucro no contato com o meio do cinema erótico foi a descoberta da maravilhosa deusa loira Brigitte Lahaie. A primeira diva do cinema erótico frances, Brigitte estreou no gênero em 1977 com "Je Suis Une Belle Salope" de Gérard Vernier e estrelou dezenas de produções pornôs sofisticadas e com histórias, típico da indústria local. 
 Brigitte Lahaie em ação...


Rollin havia recebido uma proposta de produtor para realizar um filme de zumbis, aproveitando o sucesso mundial de "Dawn of the Dead" (1978) de George Romero. Junto com seu antigo colaborador Jean-Pierre Boyxou, escreveu "Les Raisins de la Mort" (1978), considerado o primeiro filme Gore da França.



A maior parte dos efeitos foram encomendados a uma empresa italiana, já que na época não existiam especialistas franceses. Entretanto, por causa das condições do clima (o filme foi rodado durante um rigoroso inverno), muitos efeitos não funcionaram e foi necessário chamar um maquiador belga, amigo do diretor para consertar as coisas.




O filme conta os efeitos do envenenamento de uma plantação de uvas por um pesticida e que transforma os habitantes de uma pequena região produtora de vinhos em zumbis assassinos. Brigitte Lahaie faz sua primeira participação em um filme do diretor como uma personagem misteriosa típica de seus trabalhos, sempre de branco (ou nua) e creditada apenas como "a grande loira".






Rollin ganhou algum dinheiro com "Raisins" e decidiu se associar a um outro jovem produtor para realizar um novo filme do seu estilo. Mas o dinheiro era curto e ele só teria 12 dias de filmagens disponível.
Ele criou um roteiro com um mínimo de locações e um elenco pequeno, e planejou cada tomada e sequencia visando facilitar a edição, editando grande parte do material diretamente na câmera. O ponto de partida de "Fascination" (1979) é um conto de Jean Lorrain sobre um grupo de mulheres burguesas que se alimentam de sangue em um abatedouro, misturado então com algumas das fixações do diretor, como cultos ao sangue ,castelos, sexo e histórias de amor bizarras.




Chamou sua agora amiga Brigitte Lahaie e encomendou alguns efeitos gore, planejando outro sucesso. Mas uma briga antiga entre os produtores e a distribuidora cancelou o lançamento do filme após tê-lo divulgado, transformando o empreendimento já arriscado em um fracasso...
Um produtor que já havia trabalhado com Rollin, e sabia de seu esforço e rapidez em filmar com orçamentos limitados, lhe ofereceu alguns trocados para um novo trabalho. Desta vez o orçamento era minúsculo, e deveria ser realizado em no máximo duas semanas, mas com liberdade artística. O resultado foi um de seus filmes mais mal falados: "La Nuit des Traquées" (1980), com Brigitte Lahaie novamente.




Uma versão moderna do mito de Orfeu, conta como um homem tenta resgatar a sua amada (amnésica) de uma instituição psiquiátrica que guarda a sete chaves um terrível segredo sobre seus pacientes.  A mistura de suspense violento e ficção científica, transborda sua falta de verba em cada fotograma. Tudo foi filmado tarde da noite em um edifício de escritórios em Paris, depois do expediente e da faxina. A grande parte dos atores eram performances de pornôs e a precariedade técnica da equipe também é visível. Restaram uma longa cena de sexo, uma cena gore e boas idéias desperdiçadas.
















Para pagar sua contas, Jean Rollin aceitou uma proposta da picareta produtora Eurociné para concluir um pequeno filme de zumbis que inicialmente seria dirigido por Jesus Franco: "Le lac des Morts Vivants"/" El Lago de los Muertos Vivientes" (1980), com Howard Vernon (ator fetiche de Franco) e a linda Anouchka.


Um grupo de soldados nazistas é morto e jogado em um lago pelos moradores de um pequeno vilarejo. Eles retornam como zumbis famintos e tarados. Rollin só recebeu o roteiro quando já estava a caminho de rodar as primeiras cenas e assinou este nazi-zombie-trash com o pseudônimo espanhol J.A. Lazer.




Filme com ritmo lento, maquiagens "pavorosas" e bastante nudez do elenco feminino. Jean Rolin já havia trabalhado para a Eurociné, quando rodou cenas extras para o filme de Franco "Chistina, Princess de L'Érotism" quando ele foi relançado como "Une Vierge chez les Morts Vivants" (1971), acrescentando cenas com mortos-vivos que o filme original não tinha...




Uma co-produção com a Itália, lhe garantiu um orçamento (e tempo) maior do que ele estava acostumado para rodar "La Morte Vivante" (1982).






Era para ser um filme sobre uma morta-viva revivida de sua tumba em um castelo, por lixo tóxico. Mas como é um filme de Rollin, a zumbi é linda, loira, passa grande parte do tempo nua, tem uma amante e se alimenta de sangue como suas vampiras. Foi um de seus maiores sucessos de bilheteria e em vídeo.












Zumboa & Gore estilo Rollin



Fã dos antigos seriados de espionagem e aventura, Jean Rollin realizou "Les Trottoirs de Bangkok" (1984) neste estilo, com a linda oriental Yoko no papel principal.



Rollin escreveu o roteiro original do soft-core "Emmanuelle 6" (Emmanuelle- Paraíso Perdido), com a bela modelo Natalie Uher, e acabou dirigindo cenas adicionais para tentar salvar esta bomba dirigida pelo italiano Brunno Zincone. Em busca de um paraíso perdido, Emmanuelle acaba na Amazônia e é ameaçada por traficantes de drogas. Belas paisagens e belas mulheres (como a exótica morena Tamira), só isto.




















"La Femme Dangereuse"/"Killing Car" (1993) é um thriller de vingança, onde uma mulher silenciosa, vestida de preto (a linda oriental Tiki Tsang) comete diversos assassinatos deixando um carrinho de brinquedo ao lado das vítimas como assinatura. Rollin faz diversas auto-citações, mas a crítica em geral considera como um de seus piores filmes.












Finalmente o veterano mestre francês do terror-erótico voltou a pisar em seu terreno com "Les Deux Orphélines Vampires" (1997), baseado em um dos muitos livros que também escreveu. Duas irmãs adolescentes orfãs, são criadas em um orfanato religioso. Elas são cegas durante o dia, mas a noite saem para caçar seu alimento preferido:sangue. 


Lançado durante o festival londrino "Eurofest 96", com a presença de Rollin e de Brigitte Lahaie (ela faz uma domadora de circo que é vítima das garotas), foi criticado por não esconder suas origens literárias e pela grande quantidade de diálogos.






O rei dos vampiros franceses finalmente encontra o Conde Drácula em "La Fiancée de Dracula" (2002).

Novamente recompilando diversas imagens e idéias clássicas suas (Drácula sai de um antigo relógio, cenas em uma praia com escombros, castelos, rituais bizarros, etc.), ao contar a saga de um tipo de Van Helsing que procura os descendentes do vampiro entre um grupo secreto chamado de "Paralelos", pessoas que parecem normais, mas na verdade são sanguessugas.


Brigitte Lahaie, em uma participação especial faz uma espécime de mulher-lobo, uma das muitas criaturas fantásticas que aparecem no caminho do matador de vampiros.
Sua última obra foi "La masque de la Méduse" (2010), descrito como uma "fantasia de terror surreal auto-reflexiva".
Na Paris dos dias de hoje, a lendária Medusa ainda vive e perambula com amnésia, até entrar em um teatro Grand-Gignol e encontrar suas irmãs Górgonas e ter que enfrentá-las. Uma clara alegoria de como ele se sentia. No elenco, seu antigo amigo e colaborador Jean Pierre Boyxou, sua esposa Simone, sua neta Gabrielle e ele  próprio em uma ponta. Jean Rollin morreu em dezembro do mesmo ano. 



Jean Rollin (1938-2010)


Fontes: "Immoral Tales" Cathal Tohill & Pete Tombs; "The Vampire Cinema" David Pirie; IMDB e o fantástico blog de Jeremy Richey "Fascination: The Jean Rollin Experience".


by Coffin Souza


2 comentários:

  1. Parabéns ! A mais completa e elucidativa matéria sobre a obra do Mestre Jean Rollin.

    Um abraço.

    Tatuador
    (Lovecraft Fernandes)

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    Respostas
    1. Daria para escrever uma matéria 5 vezes maior,mas voltaremos ao universo de Rollin por aqui...Valeu, um abraço.

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