terça-feira, 21 de agosto de 2012

Russ Meyer: Do Vale das Bonecas aos Sete Minutos




                                                                                             por Carlos Thomas Albornoz

Roger Ebert, antes de ficar caduco e fazer uma cruzada contra os filmes de horror dos anos 80, costumava dizer que Russ Meyer (1922-2004) era o único verdadeiro ‘auteur’ americano. O argumento era simples: ao contrário de vários diretores, que se ‘contentavam’ em escrever, dirigir e talvez produzir sua obras, Meyer era pau prá toda obra: escrevia, dirigia, produzia, fotografava, comprava os vestidos, escolhia o elenco, montava e, depois do filme pronto, ia às ruas para vender seus filmes. 


Era comum os cinemas que queriam exibir suas produções negociar diretamente com ele. Na era do videocassete e do DVD, a única forma de comprar os seus filmes foi direto com ele, nas convenções ou pelo correio. Também mantinha uma espécie de ‘intercâmbio’ com a Playboy: como havia sido fotógrafo da revista, nos anos 50 e manteve ótimas relações com Hugh Hefner, conseguia o contato das ‘garotas’ que queriam trabalhar no cinema... e em troca fornecia à revista ensaios promocionais com as suas estrelas, inclusive fotografando-as para a revista, quando elas eram descobertas suas.


                               Uschi Digart, uma das garotas favoritas de Russ



                Kitten Natividad, outra das preferidas em foto do próprio Meyer

Uma pessoa com este ‘perfil’ (o pornógrafo oficial da América, como ele orgulhosamente se definia) ter trabalhado para o sistema de estúdios seria impensável... mas aconteceu. A Fox estava perdidinha: vinha perdendo dinheiro em filmes caríssimos (quase sempre musicais) que ninguém queria ver. Ao descobrir que Meyer fazia filmes baratos que rendiam dez vezes o dinheiro investido neles, não restou dúvida: este é o cara. Meyer, ao receber a proposta, exigiu autonomia, não queria ser apenas mais um contratado. Levou. E, em seu primeiro filme, ainda foi deixado em paz pelos executivos...




Deixado em paz, em parte, pela burrice dos mesmos. O roteiro, escrito por Meyer, com a ajuda do então jovem crítico de cinema Roger Ebert, é uma gozação com os clichês dos dramalhões americanos. Na descrição dos roteiristas, é uma sátira das convenções, gêneros, diálogos, personagens e fórmulas do sucesso de Hollywood, exageradas e com violência chocante. Foi entendida pelos gravatinhas como uma comédia ‘simples’. Por pressão dos sindicatos Meyer não pôde ser o diretor de fotografia ‘oficial’. 



Foi contratado seu colega da Divisão de Filmagem da Aeronáutica, o premiado Fred J. Koenekamp, vindo direto de ‘Patton’ (receberia o Oscar por ‘Inferno na Torre’, um par de anos depois). As estrelinhas da Fox se recusaram a trabalhar com um diretor com este perfil. Não houve problema. Assim, as coelhinhas da Playboy Dolly Read (que havia aparecido em ‘O Beijo do Vampiro’, da Hammer), Cynthia Meyers e Marcia McBroon, mais a velha conhecida de outros carnavais (a própria Vixen) Erica Gavin conseguiram seus papéis. Todas lindas e disposta a tirar a roupa por seu diretor...



Várias qualidades valorizam "Beyond the Valley of the Dolls" (De Volta ao Vale das Bonecas, 1970). É a história de uma fictícia banda feminina, os Carry Nations, e sua ascenção e queda no Jet set americano. Ao contrário do que normalmente acontece, as músicas da ‘banda’ funcionam maravilhosamente. É considerada uma das melhores bandas fictícias da história do cinema.










Em entrevistas (posteriores), Meyer disse que queria fazer, ao mesmo tempo uma sátira, um melodrama sério, um musical roqueiro, um violento exploitation, um filme de sacanagem (skin flick) e um drama moralista... acima de tudo, é um filme bonito, colorido, com cortes rápidos (a ´técnica’ de Meyer era ‘picotar’ o filme para disfarçar suas atrizes amadoras) e com generosa dose de nudismo de seu (belo) elenco feminino. Como um ‘plus’, ainda uma performance alucinada de John Lazar, como o psicopata à moda Charles Mason ‘Z-Man’. Uma performance tão boa que ficou marcado como doido e  levou anos para conseguir emprego como ator de novo ...




                                   Meyer com Joh Lazar durante as filmagens

O filme foi um sucesso de bilheteria, apesar da censura ter feito questão de dar censura ‘X’. Não era essa a intenção de Meyer, que projetou seu filme para receber a classificação ‘R’, mais branda. Ao ficar sabendo que a censura era definitiva, Meyer tentou trazer o filme de volta para a edição, para ‘chutar o pau da barraca’ Mesmo assim o filme rendeu pelo menos cinco vezes seu custo. Só que a produtora foi acusada pelos jornais conservadores de distribuir pornografia. A autora do livro ‘O Vale das Bonecas’ se deu conta que sua obra ia servir de saco de pancada para o senso de humor de Meyer e Ebert e tentou embargar a obra. Acabou anos depois, num daqueles ‘acordos extrajudiciais’.


Infelizmente para todos, o reinado de Russ Meyer na Fox durou pouco. Já em seu segundo filme, uma adaptação de ‘Os sete minutos’, de Irwing Wallace, foi retirada toda a liberdade criativa dada em sua estreia. Como é comum até hoje, ele foi contratado por ser um diretor diferente e começou a ser exigido que ele fosse igual a todos os contratados, bem menos talentosos que ele. Foi um fracasso, a produtora abriu mão do terceiro filme previsto no contrato e Meyer voltou à independência. Como disse Ebert, foi um momento que os loucos estavam comandando o hospício...









                Russ Meyer bem posicionado com Francesca "Kitten" Natividad



                                                                             por Carlos Thomas Albornoz

2 comentários:

  1. Respostas
    1. É Fritz, o velho Russ intendia Muito de mulher gostosa e sabia filma-las e fotografa-las...

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