segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Flamingos Cor-de-Rosa & Bosta-de-Cachorro


Nem um filme de terror, nem uma comédia, a obra-prima de John Waters "Pink Flamingos" (1972) continua a causar reações intensas em que o assiste mais de 40 anos depois que foi lançado.
O agora mais maneirado diretor/roteirista John Waters praticamente inventou o gênero Comédia-Chocante, junto com seu grupo de amigos e "terroristas-sociais" dedicados ao cinema underground.



Pink Flamingos mantem a capacidade de não só chocar o público, mas o maravilhar e divertir com a história de uma mulher chamada Babs Johnson (Divine) que vive com sua família em trailer cujo "jardim" é enfeitado com os famosos flamingos-cor-de rosa. Ela está em uma acirrada competição para manter o título de "A Pessoa Mais Pervertida do Mundo" (The Filthiest Person Alive), ambicionado pelo casal Connie e Raymond Marble (Mink Stone e David Lochary).



 A dupla de cabelos coloridos, ganha a vida inseminando artificialmente mulheres raptadas e mantidas no porão de sua casa e vendendo os bebês para casais gays.
O ano de 1972 é importante para a existência e concepção deste Cult Movie. Não é coincidência que no mesmo ano, tenha sido liberada a exibição do clássico pornô "Deep Throat" (Garganta Profunda) nos cinemas americanos. "Nós estávamos divertidos com o fato da pornografia ter sido liberada e tentamos imaginar algo "pior". Não existia lei contra isto? Bem, então não deveria existir lei contra alguém comer bosta de cachorro" (John Waters). Então Divine foi filmada fazendo exatamente isto em uma das cenas mais controvertidas da história do cinema.


Inspirados pela pesada mistura de filmes de arte Underground com a baixaria dos filmes Exploitation, Waters e sua gang criaram algo novo: A comédia como arma (crítica e ácida) contra a hipocrisia da sociedade. 
A musa de Waters, Divine (Harris Glenn Milstead- 1945/1988) não era como os outros freaks que o jovem diretor arregimentava nas ruas para sua trupe, eles eram grandes amigos. 



Juntos, se divertiam e faziam sua arte-radical e batalharam duramente para conseguir realizar o filme. "Nenhuma agência de elenco quis nos enviar seus atores. Eles foram muito corajosos em participar do filme. Eles tiveram que alterar suas aparências no filme, para depois poderem deixar suas casas tranquilamente. Era mais uma célula que um grupo de atores!" (idem)
Os outros personagens são tão engraçados/chocantes quanto o de Divine: Danny Mills vive Crackers, o filho chapado e zoofílico de Babs ( e que ganha um boquete explícito de sua "mãe"); Edith Massey é Eddie, a mãe retardada de Babs, que vive em um berço e se alimenta exclusivamente de ovos; Mary Vivian Pearce interpreta a amiga voyeur Cotton...






A produção foi tão suja e amalucada quanto os personagens mostrados na tela (bem, talvez não tanto...). "Não tínhamos aquecimento, não tínhamos comida, não tínhamos nada" (conta Waters sorrindo). "Eu mesmo filmei tudo. Era eu e o cara que fazia o som. Nem me lembro mais quem ele era. Eu aluguei o equipamento por uma semana e mandaram alguém para me ajudar."



 Alugar talvez seja uma palavra forte neste caso, já que Waters não estava em posição de comprar um equipamento profissional e nem conseguir explicar como iria utiliza-lo caso fosse alugar. "Eu paguei os caras de uma equipe de um programa de noticiário local para me emprestar ilegalmente o equipamento e mostrar como usa-lo. Eles pegaram a grana e o canal de TV nunca ficou sabendo disto."



"O movimento Punk ainda não havia aparecido. Isto começou uns quatro ou cinco anos depois. O filme era Punk e não sabíamos disto. Ele estava zuando com a cultura Hippie, glorificando a violência e a insanidade. Divine não fazia o papel de um homem que se vestia de mulher. Ele fazia o papel de uma mulher. Divine era Jayne Mansfield e Godzilla juntos, para apavorar os Hippies."
Passado mais de 40 anos, é possível ler em críticas recentes na internet, adjetivos como "Chocante", "Podre", "Absurdo", "Sujo", "Imoral", "Estranho", "Ofensivo". O que Waters acha disto...


"Uma batalha para decidir que é a pessoa mais repugnante viva? Isto é como um desenho animado infantil. Tire a parte do sexo e as crianças iriam amar a Divine. Elas não iriam se assustar com ela. Ela pareceria uma doce palhacinha. Estão ouvindo Adultos Bobocas???"







Coffin Souza (adaptado da matéria de Phil Brown para a revista Fangoria # 318, Novembro de 2012)

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