terça-feira, 29 de agosto de 2017

JUNGLE QUEENS : As Sensuais Rainhas das Selvas





Quando Henry Rider Haggard (1856-1925) publicou sua novela "She" (Ela, a Feiticeira)  em 1887,  ele não poderia imaginar que a obra seria um imenso sucesso e continuaria a ser impressa nos próximos 130 anos; Nem que também teria criado uma personagem que permaneceria na cultura pop - com altos e baixos - desde então: a Rainha da Selvas



 "Ela" foi uma clássica aventura vitoriana passada na África, o "Continente Negro"; Horace Jolley e Leo Vincey realizam uma perigosa jornada em busca de um reino perdido, eventualmente encontrando os Amahaggar, uma tribo nativa governada pela beleza branca de 2.000 anos de idade, chamada Ayesha, ou Ela, que "deve ser obedecida"...




 Ursula Andress como Ayesha, no filme da Hammer- "She" (A Deusa da Cidade Perdida, 1965)


Como o "Drácula" de Bram Stoker, que ela antecedeu por uma década, Ayesha estava procurando a reencarnação de um amor perdido...



...Mas a novela de Haggard também satisfez uma paixão antiga-vitoriana pelo mistério e sedução da África - e toda a sua "salvação" e potencial colonial (também lembrando que a obra de Haggard veio antes do "Tarzan" de Edgar Rice Burroughs, que teve seu primeiro livro somente em 1912). A idéia de uma mulher branca reinando no meio das tribos africanas capturou a imaginação pública febril e, na virada do século 20, as Rainhas da Selvas estavam em toda parte:
As garotas da selva usando vestidos ou biquínis de peles de animais se tornaram um acessório indispensável na literatura, ficção pulp, nos quadrinhos e nos filmes B...





 Na novela "Green Mansions: A Romance of the Tropical Forest" (1904) de William Henry Hudson, Abel, um fugitivo político da Venezuela descobre nas selvas tropicais da Guyana uma jovem selvagem chamada RIMA.

 A personagem seria vivida no cinema por Audrey Hepburn, na adaptação "Green Mansions" ( A Flor Que Não Morreu, 1959) de Mel Ferrer, com Anthony Perkins (Abel), Lee J. Cobb e Henry Silva...



...Como curiosidade, o célebre compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos colaborou na trilha sonora com uma composição sua inspirada no livro ( e composta antes da adaptação cinematográfica!)...

Rima seria adaptada nos quadrinhos em 1974 como "Rima, the Jungle Girl" da DC Comics (no Brasil saiu pela Editora EBAL como "Rima, A Princesa das Selvas"); e apareceu em alguns episódios da série de animação "Superamigos" (1977) da Hanna-Barbera...




Este seria o modelo de 99% das Rainhas das Selvas: Versões femininas de Tarzan ou Mogli; Crianças brancas, britânicas ou americanas perdidas, criadas por animais ou tribos primitivas, retratadas como salvadores dos "nativos"... 

No cinema mudo tivemos DARWA (Ruth Budd) no filme
 "A Scream in the Night" (1919) de Burton L.King & Leander De Cordova...





...e outras rainhas & princesas...


As histórias (escritas, desenhadas ou filmadas) eram aventuras puramente escapistas, com animais selvagens, perigos a todo instante, pitadas de erotismo, selvas exóticas e muito racismo...




O escritor americano Gary Phillips, que co-editou a antologia "Black Pulp", fala sobre este aspecto:

"Por um lado, a África teve uma qualidade exótica que esses escritores ficaram fascinados porque era desconhecida... Mas, os " nativos "não são individualizados. Talvez haja um carregador leal, mas o resto são selvagens supersticiosos e muito perigosos. Era um tipo de transplante do que se fez com os nativos do oeste dos Estados Unidos para o chamado Continente Negro?"



"E qual o melhor símbolo da superioridade branca do que a Rainha da Selva que vem em um momento em que os homens negros em algumas partes do país ainda estão sendo linchados ou levados para a prisão por somente olhar de lado para uma mulher branca? No entanto, aqui está, ela,  balançando por cima das árvores - em um biquíni de pele de leopardo ".




A escritora e fã do gênero Pulp Jess Nevins, vai mais longe:
" Você tem uma mulher sensual e sem restrições, mas que permanece virginal apesar de estar cercada por homens (negros); Mas quem é uma mulher esperta, poderosa e independente que implicitamente (desafiará) as regras restritivas da sociedade quando se trata de sexo e seus protagonistas - ou seja, ela é uma virgem que se tornará uma prostituta ", diz ela. "(E) você tem uma" rainha "branca que governa uma sociedade negra - nos olhos da audiência contemporânea, o arranjo apropriado -, mas que acabará inevitavelmente se apaixonando pelo protagonista masculino branco ... e segue a lista".




Mas, ignorando (ou não) estes aspectos racistas e machistas, as "Jungle Queens" pertencem ao imaginário popular, e se proliferaram (muito), através dos tempos:

"The Savage Girl" (A Linda Selvagem, 1932) de Harry L. Fraser, contava a história de um caçador na África, que encontrava uma jovem deusa branca das Selvas (Rochelle Hudson) protegida por um gorila (o especialista no papel, Charles Gemora).




 O filme foi realizado no mesmo ano do sucesso "Tarzan the Ape Man" (Tarzan, o Filho das Selvas)   com Maureen O'Sullivan em sua primeira aparição como a Jane, de Johnny Weissmuller; não tem o mesmo nível de produção, mas, é divertido, e uma importante (e esquecida) influência no gênero. Rochelle Hudson não só tinha um look perfeito ( e utilizava a depois clássica "pele-de-leopardo"), mas também tinha talento para expressar muitas coisas sem palavras, da curiosidade à raiva. Infelizmente, ela tinha que gritar muito por ajuda . Em filmes posteriores do gênero, as rainhas das selvas teriam mais poder sobre animais e homens, e então, realmente governariam as matas...



No México, o filme ganhou o Título de "A Mulher Tarzan", e a personagem foi vendida com as verdadeiras qualidades de uma Jungle Queen...


A "Jungle Girl" do Sião, de H. Bedford-Jones para a revista pulp Argosy em 1934... 




ULAH (Dorothy Lamour) no filme "The Jungle Princess" (Princesa das Selva, 1936) de William Thiele; Uma garota criada com um tigre de estimação entre os nativos das selvas da Malásia, e que se apaixona pelo caçador vivido por Ray Milland...



A jovem e bela Lamour (Mary Leta Dorothy Slaton, 1914/1996) fez enorme sucesso no papel, se tornando uma estrela hollywoodiana, mas nunca mais se livrando da sina de ser uma Tarzan-de-saias...ou melhor, de sarongue! 




Ela voltou a ser uma linda selvagem em "O Furacão" (1937) de John Ford; Praticamente repetiu sua personagem, agora sendo TURA, em "Her Jungle Love" (Idílio na Selva, 1938) de George Archainbaud, novamente com Ray Milland como seu par romântico-civilizado; DEA, em "Typhoon" (A Deusa da Floresta, 1940) de Louis King; e TAMA, em "Beyond the Blue Horizon" (Além do Horizonte Azul, 1942) de Alfred Santell...



...em comédias com a dupla Bing Crosby & Bob Hope, além de adaptações/versões em quadrinhos!!??!...




Em 1937, Will Eisner (mais tarde criador e desenhista do imortal "The Spirit") e Jerry Iger criaram SHEENA, a Rainha das Selvas (Queen of the Jungle), uma das mais conhecidas "Jungle Queens". A dupla assinava as histórias com o pseudônimo de "W.Morgan Thomas", e Eisner disse que o nome da personagem foi inspirado em "SHE", de H.R.Haggard.




Sheena apresentava traços inéditos: foi a primeira "garota das selvas" dos comics a usar uma roupa de pele de leopardo, que logo se tornaria um clichê, e foi também a primeira heróina a ganhar uma revista própria, publicada pela Fiction House entre 1942 e 1953. 




 Sheena foi transformada em uma série de TV de 26 episódios exibidos entre 1955-56.





 A linda modelo Irish McCalla foi descoberta na praia de Malibu, e apesar de seus escassos talentos dramáticos (ela teria dito: "Eu não sabia atuar mas era capaz de me balançar entre as árvores") fez a primeira e mais perfeita encarnação da personagem até hoje.




 Além do corpo maravilhoso, Irish tinha um olhar naturalmente inocente, e era uma atleta nata, dispensando dublês em cenas de perigo (até se machucar em uma delas...)




Em 1984, a Columbia Pictures lançou o filme "Sheena  (Sheena, a Rainha das Selvas) de John Guillermin, com Tanya Roberts (que havia previamente interpretado KIRI na fantasia "The Beastmaster" /"O Príncipe Guerreiro" ( 1982) de Don Coscarelli), como uma Sheena mais eloquente do que a de McCalla...








 RULAH, JUNGLE GODDESS - a estrela de Zoot Comics ao longo da década de 1940 -  seu avião caiu na selva e ela passou a ser venerada por uma tribo (depois de vestir um biquíni de pele de girafa quando suas roupas foram convenientemente destruídas).



JANN OF THE JUNGLE, publicada pela Atlas (antecessora da Marvel) em 1956, é uma trapezista que se transforma em uma líder "iluminada" nas selvas da África...




Da indústria de Bollywood vieram versões de Sheena e outras Rainhas das Selvas, como "Tarzan Sundari" (1983); "Africadalli Sheela" (1986); "Jungle Ki Beti" (1988), e muitas outras...



O diferencial é que elas não eram garotas loiras ocidentais, mas tinham todas as mesmas características, muito romantismo, e claro como em todo filme indiano... inúmeros números musicais em meio às selvas...





Uma série de TV com a personagem Sheena foi ao ar entre 2000 e 2002, com a linda e simpática Gena Lee Nolin no papel principal.




Nos 35 episódios distribuídos pela Columbia/TriStar, a heroína das selvas ganhou um novo poder: A habilidade de se transformar em qualquer animal, selvagem ou não, bastando olhar em seus olhos...




A escritora canadense Margaret Atwood (autora do romance de sucesso "The Handmaid's Tale") fez uma introdução para uma nova edição de "She", de H.R. Haggard.  
Para Atwood, Ayesha era uma "mulher supremamente transgressiva que desafia o poder masculino; Embora seu tamanho de sapato seja pequeno e suas unhas sejam rosas, ela é uma rebelde no coração. Se ao menos não tivesse sofrido tanto por amor, teria usado suas energias formidáveis ​​para derrubar a ordem civilizada estabelecida. Que esta ordem- civilizada- estabelecida era branca, masculina e europeia, ela talvez não soubesse; Assim, seu poder não era apenas feminino - do coração, do corpo - mas bárbaro e "dark".



É quase uma dica  para os  criadoras de mulheres poderosas - nos quadrinhos, livros ou filmes - para desafiarem essa ordem e adaptarem esta realidade à ficção.  Outra coisa que Haggard provavelmente nunca imaginou, junto com a longevidade de sua rainha das selvas...



...A lista de Rainhas das Selvas nos quadrinhos e no cinema é enorme, mas, nos dias politicamente corretos de hoje, podem ser vistas apenas como belos, selvagens, racistas, e cultuados... anacronismos...
















































https://www.theguardian.com/books/2017/jul/06/she-sheena-jungle-queens-enduring-ambiguous-allure-h-rider-haggard

https://en.wikipedia.org/wiki/Sheena,_Queen_of_the_Jungle

http://www.imdb.com/search/keyword?keywords=female-tarzan
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